Eu estava aqui no Leblon, tentando decidir se ia direto para a academia ou para um shopping, quando o celular começou a apitar mais do que caixa de som em after de sertanejo universitário. Mato Grosso do Sul entrou em modo treta máxima, com operação anticorrupção fuçando contratos de saúde e derrubando aquele tipo de chefe de confiança que vive jurando que é “técnico”, mas conhece todos os advogados criminalistas pelo primeiro nome. A fofoca oficial é corrupção, mas a fofoca real é outra: gente decidindo quem fazia exame e cirurgia enquanto contava quanto ia pingar na conta.
Quem acompanha as confusões por lá sabe que não é capítulo único, é temporada inteira. Já teve investigação em cima de compra de livros, contratos de judicialização da saúde, licitação esquisita e aquele clássico combo de empresa amiga ganhando tudo e concorrente assistindo pela janela. E no meio disso aparece sempre o mesmo perfil de personagem: secretário que posa de gestor moderno, chefe de setor que manda mais que o titular e assessor que não posta uma foto no Instagram sem relógio caro aparecendo discretamente na borda. A graça para a fofoqueira aqui é ver como o roteiro se repete, só muda o sobrenome que cai no Diário Oficial.

Nas redes, a diferença é gritante. De um lado, morador reclamando que esperou meses por exame enquanto vê na TV que tinha dinheiro rodando solto em contrato turbinado e esquema de liberação seletiva. Do outro, político que ontem postava selfie em hospital público hoje some do feed, some dos stories e aparece apenas em nota fria, escrita por assessor, dizendo que “confia na Justiça” e “desconhece irregularidades”. É o famoso engajamento seletivo: para inauguração de obra tem live em todas as plataformas, para explicar quem deixou a fila do SUS travada, só silêncio e advogado alinhando discurso.
Soube de um telefonema que rodou forte aqui no Rio de Janeiro, daquelas ligações que atravessam Brasília, Campo Grande e param na mesa de quem manda soltar verba. Eu já tinha terminado uma taça de champanhe num rooftop em Ipanema quando a história chegou inteira: a queda do figurão na saúde não foi surpresa alguma, foi só a faxina mínima para tentar segurar a narrativa antes que a próxima fase da investigação exploda nomes ainda mais graúdos. Enquanto o público discute no X se é caso de impeachment ou de esquecimento coletivo, tem gente correndo para ajeitar contrato, apagar mensagem e revisar quem foi que recebeu o quê nos últimos anos.

Corrupção em saúde é a fronteira final da cafonice política, porque mistura vaidade de gabinete com crueldade de quem nunca precisou disputar vaga em exame pelo SUS. Quando o escândalo envolve exame, cirurgia e fila de hospital, não tem “eu não sabia”, tem escolha. E quem escolhe brincar com isso merece exatamente o que vem aí: manchete, processo, queda e, claro, a visita atenta da Kátia Flávia, anotando cada detalhe para contar no próximo jantar no Jardim Botânico como se fosse história engraçada, só que com nome, sobrenome e currículo inteiro na pontinha da língua.
