Apreciado por turistas que visitam o Brasil e conhecido mundialmente por receitas como o brigadeiro, o chocolate ocupa um espaço especial na rotina dos brasileiros. Seja em aniversários, presentes ou naquele “docinho” depois do almoço, o alimento faz parte de momentos de celebração e afeto. Celebrado nesta terça-feira (7), o Dia Mundial do Chocolate vai além da paixão pelo doce e convida à reflexão sobre consumo consciente, saúde e até produção local.
No Distrito Federal, o chocolate movimenta pequenos empreendedores, impulsiona uma cultura agrícola ainda inédita na região e, segundo especialistas, pode fazer parte da alimentação sem culpa, desde que consumido com equilíbrio.
Da venda de bombons ao sonho da loja própria
Foi justamente por causa dos doces que a vida da confeiteira Renata Marchiori mudou completamente. Há sete anos, enquanto fazia um curso no Senac, ela precisava encontrar uma forma de pagar as despesas do dia a dia. A solução foi começar a produzir bombons em casa. Os doces eram preparados durante a noite e vendidos no dia seguinte, principalmente na porta de escolas.

O negócio cresceu rapidamente. Vieram os bolos de pote, depois os bolos de aniversário e, há cerca de cinco meses, a primeira loja física da Doce Essência Confeitaria Artesanal. Hoje, ela afirma que encontrou na confeitaria muito mais do que uma profissão.
“Ver as pessoas provando os doces com chocolate e elogiando é extraordinário. Não é só um doce. Vai carinho, afeto e momentos especiais. Eu não me vejo mais fazendo outra coisa”, conta.
Segundo Renata, a procura pelos doces continua alta. Embora a demanda por produtos com menos açúcar tenha crescido, os doces tradicionais seguem como preferência da maioria dos clientes. Para ela, o consumidor está mais preocupado em consumir com equilíbrio do que em deixar o chocolate de lado.
Essa também é a visão da estudante Giovanna Xavier, de 19 anos. Apaixonada por chocolate ao leite, especialmente pelo bombom Prestígio, ela conta que costuma consumir o doce cerca de uma vez por semana.
“Eu acho que é possível consumir chocolate com equilíbrio e sem culpa. Geralmente como depois do almoço ou quando quero um docinho para alegrar meu dia”, diz.
Do Cerrado para o chocolate
O chocolate começa muito antes de chegar às prateleiras das lojas. O principal ingrediente da receita, o cacau, também está ganhando espaço no Distrito Federal. A produtora rural, chocolate maker e fundadora da Cacau Candango, Marlene Marques, é uma das pioneiras no cultivo da fruta na região.
A história começou há mais de dez anos, quando ela recebeu cerca de 50 pés de cacau apenas para compor o pomar da propriedade. Mesmo sem manejo específico, as plantas começaram a produzir frutos, despertando o interesse da família em investir na cultura.
Hoje, após adaptações no solo, irrigação constante, podas frequentes e a implantação de barreiras contra o vento, a produção demonstra que o Cerrado também pode produzir cacau de qualidade.
“Brasília tem um potencial muito grande e estamos mostrando que é possível produzir cacau aqui”, afirma.
Benefícios sem exageros
É justamente a maior concentração de cacau que faz diferença na qualidade nutricional do chocolate, explica a nutricionista Rayanne Marques. Segundo ela, chocolates com maior percentual de cacau concentram flavonoides, compostos antioxidantes que auxiliam na saúde cardiovascular e ajudam a combater o estresse oxidativo.
Neste ano, o setor também passou a contar com novas regras. Em maio foi sancionada a Lei nº 15.404/2026, que estabelece percentuais mínimos de cacau para diferentes tipos de chocolate e determina que os rótulos informem o teor de cacau presente na composição.
Apesar dos benefícios, Rayanne ressalta que o alimento não deve ser visto nem como remédio nem como vilão.
“O chocolate pode fazer parte de uma alimentação saudável quando está inserido em um contexto alimentar equilibrado. Proibir completamente esse alimento pode aumentar a vontade de consumi-lo e favorecer exageros”, explica.
A recomendação é consumir entre 20 e 30 gramas por dia, preferencialmente após refeições completas. A nutricionista também esclarece alguns mitos: o chocolate não causa espinhas diretamente, não provoca dependência química e pode melhorar o humor principalmente pelo prazer associado ao seu consumo.
Atenção ao consumo infantil
Se para os adultos o equilíbrio é a principal orientação, na infância os cuidados devem começar ainda mais cedo. A coordenadora médica da Pediatria do Hospital Anchieta Taguatinga, Débora Larissa Cruvinel, lembra que a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é não oferecer açúcar adicionado antes dos dois anos de idade.
Segundo a médica, oferecer doces precocemente favorece a preferência por alimentos muito açucarados, aumenta o risco de obesidade infantil, diabetes tipo 2 e cáries, além de dificultar a aceitação de frutas e verduras.
Em vez da proibição absoluta, ela defende que os pais invistam na educação alimentar e deem o exemplo dentro de casa.
“A criança aprende pelo comportamento da família. Quando o consumo acontece de forma consciente e moderada, ela tende a desenvolver essa mesma relação com os doces”, conclui.
Com histórias de empreendedorismo, inovação no campo e orientações para uma alimentação mais equilibrada, o chocolate mostra que vai muito além de um simples doce. Consumido com moderação, ele continua sendo um símbolo de celebração, afeto e sabor, capaz de unir gerações e criar memórias afetivas.
