São Paulo e Brasília, 26 – O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou ontem que o partido precisa resolver o conflito entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. “Se nós não nos entendermos, vamos perder a eleição”, disse o dirigente, acrescentando que, se o embate entre madrasta e enteado persistir, “quem vai pagar” será o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que “fica preso mais dez anos”.
A declaração do presidente do PL foi dada durante entrevista à Rádio Gaúcha, no aeroporto de Miami (EUA). Valdemar afirmou que antecipou seu retorno ao Brasil para conversar com Michelle e Flávio. Ele disse considerar o episódio “muito sério”.
A crise interna no partido foi deflagrada por um relato feito por Michelle em que ela diz ter sofrido “humilhação” de Flávio. Ela publicou um vídeo de quase 30 minutos nas redes sociais na quarta-feira. “Ele (Flávio) foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone. E eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”, afirmou Michelle.
A ex-primeira-dama prosseguiu. “Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi ” Segundo ela, o episódio ocorreu após ela criticar publicamente a decisão do diretório cearense do PL de apoiar a candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Estado.
Em resposta, Flávio negou ter maltratado a madrasta. “Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil. Toda a nossa família está passando por um momento muito difícil. E entendo a angústia da Michelle vendo meu pai, todos os dias, sofrendo com tamanha injustiça”, declarou o senador nas redes sociais.
ALIANÇA
Ontem, Valdemar defendeu a aliança do PL com Ciro Gomes. “O Ciro briga até com o irmão, briga com a família toda. Ele ataca todo mundo, mas é o único que tem chances de vencer o PT. Se nós não formos com ele, o governador do Ceará vai ser do PT. Se nós formos com ele, ele ganha a eleição”, afirmou o presidente do PL, dizendo que Michelle precisa ser convencida sobre a aliança no Ceará.
Outro ponto levantado pela ex-primeira-dama no vídeo foi a candidatura de Priscila Costa (PL-CE) como representante do partido na disputa ao Senado pelo Ceará. O deputado federal André Fernandes, presidente do PL no Estado e o principal articulador do apoio a Ciro Gomes, trabalha pelo nome do pai, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE), na chapa.
“É para se unir a esse homem (Ciro Gomes) que estão perseguindo e tentando retirar da disputa uma mulher nordestina, mãe de quatro filhos, que dedicou tudo ao movimento em defesa da vida? Já que a aliança com o Ciro é tão boa, por que o André não disponibiliza a vaga do seu próprio pai?”, disse Michelle no vídeo.
‘NÃO VI’
Ciro Gomes, por sua vez, buscou se distanciar da briga familiar. “Não vi nem vou ver”, disse o pré-candidato ao governo do Ceará, se referindo ao vídeo de Michelle. “É uma questão do PL nacional e envolve coisas muito mais complexas do que a nossa paróquia aqui. Eu sigo aqui tranquilo. O eixo do nosso entendimento aqui é um projeto de emancipação do Ceará que nós consideramos que está sendo muito maltratado”, disse ele ao g1.
Valdemar negou que tenha havido desrespeito de Flávio à madrasta “Isso é difícil, em vários lugares nós temos problema, não é só lá não (Ceará)”. “Ela (Michelle) tem uma candidata muito forte (Priscila Costa), que foi a vereadora mais votada do Estado e tem chances de ser senadora, assim como o pai do Fernandes tem. Ele perdeu a eleição por dez mil votos para prefeito de Fortaleza”, declarou Valdemar, destacando que é preciso “respeitar a estrutura de lá”.
Ao comentar o papel da ex-primeira-dama dentro da sigla, o presidente do PL ressaltou a importância de Michelle para o fortalecimento do partido entre o eleitorado feminino. “O que ela fez pelo PL Mulher no Brasil não tem preço, fez um trabalho maravilhoso e tenho o maior respeito por ela”, disse o dirigente
ATAQUES
Segundo integrantes do PL, um evento eleitoral que deve ocorrer em Fortaleza em 10 de julho e a suspeita de que Flávio estaria por trás de ataques virtuais foram o estopim para que Michelle decidisse divulgar o vídeo.
Até então, a ex-primeira-dama vinha se queixando para aliados de “ataques” que sofria de comunicadores próximos aos filhos do marido, como Paulo Figueiredo, Kim Paim, Allan dos Santos e Didi Redpill, e demonstrava que via a ofensiva como obra dos enteados As críticas teriam se acentuado a partir de suas últimas movimentações políticas, em especial no Ceará, quando bateu de frente com Flávio.
Com apoio de Flávio, o grupo político de André Fernandes, que preside a sigla no Estado, organizou um evento de lançamento da pré-candidatura do pai, Alcides, ao Senado para 10 de julho, em Fortaleza. Para não ver a principal aliada rifada, Michelle confirmou presença no evento e declarou, em 16 de junho, que subiria no palanque para lançar também a pré-candidatura de Priscila. O movimento acendeu um alerta no PL local, que viu a aliança com Ciro ameaçada.
O grupo político de Michelle, a partir de então, passou a relatar notícias que consideraram “fabricadas” circulando em perfis e sites do Ceará, com a informação de que a ex-primeira-dama estaria exigindo desculpas dos filhos do marido para que pudesse dar apoio à pré-campanha presidencial.
DOSSIÊ
Em meio à crise familiar, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) não fez nenhuma declaração direta sobre os vídeos de Michelle, mas anteontem, nas redes sociais, republicou conteúdos que questionam as motivações da madrasta e reforçam a imagem do irmão como candidato presidencial. Em uma das publicações, Eduardo compartilhou o link para um vídeo com o título “Dossiê: Michelle – As Notícias Desmentem” e escreveu: “Sempre fazendo uma viagem ao passado para compreender o presente”.
Na gravação, um youtuber acusa a ex-primeira-dama de não apoiar a pré-candidatura de Flávio à Presidência, de dificultar o acesso de filhos e aliados ao ex-presidente durante a prisão domiciliar e de agir por interesses pessoais, em vez de priorizar a derrota do PT.
Eduardo republicou ainda um vídeo do também deputado cassado Alexandre Ramagem (PL-RJ), que vive nos Estados Unidos enquanto enfrenta processo de extradição solicitado pelo Brasil. Ramagem afirmou que Michelle “trouxe um assunto de sete meses atrás para prejudicar Flávio” e que a ex-primeira-dama “faz birra” por não ter aceitado a decisão do marido sobre a candidatura ao Palácio do Planalto.
Estadão Conteúdo
